[ALERTA GATILHO – ABUSO INFANTIL]
A menina, como vocês podem imaginar, era só uma menina. A violação veio cedo, por volta dos 7 anos, revirou cada osso de seu corpo, corroeu cada resquício de inocência programada da sua existência e a deixou fraca de espírito. A criança morreu prematura, seu velório aconteceu entre suas coxas e o crescimento de seus seios. O caixão era vermelho, as flores fediam a família que não acreditava no que a menina contava e o enterro acabou quando ela sentiu culpa e nojo de si mesma por ser mulher.
Em seguida, veio a Sacerdotisa. Ela nasceu no dia em que a menina morreu e foi crescendo junto com a sombra da mulher. Quanto mais a sombra se esticava e tentava engolir a menina, mais a Sacerdotisa se desenvolvia banhada pelo sangue e pelos ciclos do ser que a carregava. A menina gestou sua maior protetora através das luas e dos dias enquanto se compreendia como mulher.
Toda a dor servia de alimento para aquela que sabia de tudo e escrevia no inconsciente da menina a melhor maneira de lidar com o luto da criança que estava morta dentro da mulher. A Sacerdotisa enchia a mulher de pistas sobre si mesma porque o corpo da menina havia se tornado um templo e um dia, o sangue antes odiado, se tornou combustível para a cura da criança morta que passou a viver como um Lázaro dentro da mulher.
Duda Albuquerque
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Duda Albuquerque é escritora, editora, poeta e jornalista pela Puc Goiás. Desde muito nova se interessa por literatura e o seu objetivo é melhorar o mundo através das palavras.
Sem palavras pra essa escrita... <3
ResponderExcluirQue texto bem feito!! Um assunto tão Tabu, ser expressado dessa maneira "leve" e que chega a gerar inspiração para quem tem empatia sobre o assunto, é realmente algo difícil de se alcançar. Parabéns para a escritora.
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